terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Lei 11.645/08: Modos de Usar [Encontro Dois]


Edson Kayapó, Marcos Aguiar, Graça Graúna e Daniel Munduruku
Foi com o objetivo de discutir a lei que dispõe sobre a obrigatoriedade da inclusão de temática indígena em todos os níveis da educação brasileira que o Instituto Uk'a – Casa dos Saberes Indígenas – organizou o encontro de especialistas indígenas dentro do projeto Dez Encontros com a Literatura Indígena. O encontro, voltado para educadores, editores, estudantes e interessados em geral, aconteceu na manhã do dia 13 de dezembro no auditório da Biblioteca Pública Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, em São Paulo.
Wapichana canta e encanta
Logo na abertura o conhecido autor Daniel Munduruku [que também preside o recém criado Instituto] fez o lançamento oficial do selo Uk'a Editorial ligado ao instituto e cujo objetivo é publicar livros sobre a temática indígena que agreguem valor na formação da consciência crítica das crianças e jovens brasileiros. O primeiro título do novo selo tem o sugestivo nome Mundurukando, de autoria de Daniel Munduruku.
Cristino Wapichana fez uma abertura poética animando a plateia com seu violão lembrando a importância da música para os povos indígenas brasileiros.
Na sequência o indígena Kayapó Edson Brito, doutorando em educação na PUC/SP, dissertou sobre o histórico da lei 11.645/08 mostrando que ela é fruto de uma demanda do próprio movimento indígena brasileiro. "A lei não é uma gentileza do governo brasileiro. Ela é fruto de uma luta que os povos indígenas vêm travando desde a década de 1970 cujo objetivo é tirar estes povos da invisibilidade histórica a que foram submetidos", comentou o intelectual.

A segunda pessoa a expor suas ideias foi o indigenista Marcos Aguiar que desenvolve um trabalho muito rico com os indígenas em contexto urbano através da atuação da ONG Opção Brasil. O especialista lembrou que a referida lei impõe uma obrigatoriedade às escolas, mas não obrigou o próprio Estado brasileiro a preparar os professores para lidar de forma competente com a temática em questão. Marcos lembrou que "o Brasil precisa preparar melhor seus educadores, caso contrário a lei vai apenas impor um conteúdo que já está sendo mal trabalho nas escolas brasileiras".

Daniel Munduruku – mediador do debate – lembrou que os povos indígenas estão utilizando as novas tecnologias para tornarem-se mais visíveis para o Brasil. Segundo ele "a literatura é um desses novos mecanismos que a memória se utiliza para se atualizar. Pensar literatura indígena apenas como escritura é menosprezar a visão holística tradicional que não divide os saberes e engloba as várias formas de manifestações do corpo".
Olívio e Verá Mirim conversam com o público
Encerrando a fala dos convidados Graça Graúna, indígena Potiguara do Rio Grande do Norte e doutora em Literatura pela UFPE, lembrou o surgimento da literatura indígena citando nomes de pessoas que contribuíram para o nascimento deste fenômeno. Lembrou também que sua dissertação de mestrado [que abordava o tema pela primeira vez] recebeu forte resistência no contexto da universidade quando a impossibilitando de dar continuidade aos estudos. Graça Graúna chamou a atenção da plateia pelo seu jeito simples, mas profundo de abordar a temática da literatura reafirmando a necessidade de se redescobrir o Brasil através da leitura das obras dos autores indígenas. Ela diz que "sem este movimento literário, o movimento indígena perderia uma importante vertente para educar o olhar da sociedade brasileira".
O encontro encerrou-se com um momento de perguntas e respostas entre o público e os convidados com especial destaque à presença do escritor guarani Olívio Jekupé que veio da aldeia Krukutu, localizada em Parelheiros, zona sul de São Paulo, em companhia do pajé Verá Mirim. Ambos tiveram oportunidade de conversar com o público e divulgar a presença guarani em terras paulistanas...ou seria o contrário?

Cartaz de divulgação do evento
No encerramento, foi lembrado aos presentes [aproximadamente 30 pessoas] que o Projeto Dez Encontros com a Literatura Indígena, proposto pelo Instituto Uk'a, terá continuidade em 2011 e que a instituição irá buscar parcerias para a realização dos temas que serão escolhidos para os próximos encontros. Munduruku lembrou que este segundo encontro foi patrocinado pelo Instituto EcoFuturo, Instituto C&A e pela empresa Farmoterápica. Teve o apoio, ainda, da Prefeitura Municipal de São Paulo através do Sistema Municipal de Bibliotecas Públicas e da Biblioteca Infantil e Juvenil Monteiro Lobato.




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8 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Viva!Vida longa a esta Porta dos Saberes Indígenas que já chega lançando luzes e esperança no horizonte dos povos indígenas.Parabéns a todos
    que abrilhantaram(!)brilhantes pessoas, com suas
    criações este lançamento do Instituto Uk'a, bem vinda iniciativa deste valente criador de boas práticas,nosso querido Daniel Mundurukú e seus
    bravos contadores de histórias...
    Ailton Krenak

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  3. fiquei feliz em ver a graça graúna, pois é uma pessoa de grande sabedorai, doutora de renome e estar ao lado dela me deixa alegre porque foi em 1988 que ela me viu numa materia no jornal nicolau, lá de curitiba, e graças a isso nos tornamos amigos.
    parabens graça.

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  4. no anuncio aí saiu errado o local onde moro, eu moro na aldeia krukutu, e não na tenonde porã

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  5. Dani, meu bom irmão de luta: tomada pela emoção escrevi tanta coisa meio que correndo e vi depois um monte de palavras que escrevi erradamente. Então, por favor, apague a minha primeira mensagem e edite esta que segue. Ficarei bastante agradecida. Bjos.

    Dani, meu querido: nunca é demais repetir que eu não tenho dúvidas que esta casa tão lindamente chamada de "UKA" - em munduruku,significa também nosso amparo. Que esta casa - UKA - tenha vida longa e que todos os participantes desse lugar multipliquem o saber, a alegria que herdamos dos nossos ancestrais. Em tempo, agradeço mais uma vez pelo convite que me fez para participar do lançamento dessa Casa de Saberes Ancestrais; agradeço pela alegria do reencontro. Adorei rever Heloisa Prieto, Tania (sua mulher), Camila, Olivio Jekupé, Edson Kaiapo, Marcos Aguiar, Cristino Wapichana e tanta gente boa e bonita que esteve presente ao evento. Grata pela generosidade das palavras. Estarei sempre por perto quando precisar. Paz em Ñanderu,
    Graça Graúna

    PS: divulgarei UKA no meu pequeno blog.

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  6. Queridos amigos Graça, Olívio e Ailton:
    É uma honra para nós do Instituto poder receber palavras de incentivo e compromisso. Muito obrigado pela presença sempre constante. Nosso ser indígena ganha com a presença e generosidade de todos vocês. Toda e qualquer contribuição será muito bem vinda. Um grande abraço do Daniel Munduruku

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  7. O ano de 2011 fecha com um belo presente à sociedade brasileira, indígena e não indígena. Uk'a, uma casa para prosearmos, falarmos de ancestralidade, histórias, amor, revoluções...
    Daniel, homem visionário, louco pela vida intensa. Louco!
    Parabéns pela bela iniciativa.
    Edson Kayapó

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  8. Demorei pra comentar, mas...
    Foi realmente uma honra estar tão jovem em um encontro tão rico! Poder aprender tanta coisa sobre a cultura e a literatura indígenas motivou-me grandemente a continuar. Escutar o Wapichana cantando uma música sobre "Sinal do Pajé" foi meu cartão de visita!
    Espero poder contar com suas obras durante muito tempo!
    Um abraço!
    Luís Fernando Nascimento - Universidade de Taubaté/SP

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